Jefferson SantanaPensamento executivo
Reflexão

Conhecimento tácito pode ser um ativo. E pode ser uma âncora.

Durante muito tempo, eu acreditei que uma boa especificação funcional conseguia compensar a falta de conhecimento do negócio em um time de tecnologia.

Hoje, não acredito mais nisso.

Aprendi isso em um projeto complexo de evolução de uma plataforma crítica.

Montei um time novo, com bons profissionais.

E fiz algo que, naquele momento, me parecia bastante racional: antes de desenvolver, investimos bastante tempo em assessment, jornadas e especificação funcional.

Minha premissa era simples:

se fizermos um levantamento suficientemente bom, o time terá o conhecimento necessário para construir.

Eu estava errado.

Havia conhecimento que não estava nos documentos.

Regras não ditas. Exceções. Dependências entre sistemas. Particularidades da operação que só ficavam evidentes para quem conhecia aquele ambiente de verdade.

O time conseguiu modelar o caminho feliz.

O problema é que o caminho feliz era só uma parte da realidade.

Isso trouxe retrabalho, aumentou o tempo de execução e, talvez mais importante, afetou a confiança do negócio na nossa capacidade de entrega.

Essa experiência mudou a forma como hoje monto times para evoluir sistemas e processos existentes.

Eu quero gente nova.

Quero profissionais tecnicamente excelentes, capazes de questionar a arquitetura e trazer outras referências.

Mas quero também uma parcela relevante de pessoas que conheçam profundamente o negócio, os sistemas e suas exceções.

Não para defender o legado.

Para evitar que o time descubra tarde demais aquilo que alguém com experiência naquele contexto poderia ter questionado no início.

Porque existe um limite para o que um bom discovery consegue capturar.

Se você não souber fazer as perguntas certas, não vai conseguir tirar as nuances.

Mas existe o outro lado.

Quando o objetivo é reimaginar completamente uma jornada, o conhecimento existente também pode virar âncora.

Quem passou anos operando um processo de determinada maneira pode, sem perceber, desenhar apenas uma versão digital do mesmo processo.

Por isso, hoje não penso mais em “gente de dentro versus gente de fora”.

A pergunta que me interessa é outra:

qual conhecimento precisamos preservar — e qual precisamos desafiar?

Conhecimento tácito pode ser um ativo.

E pode ser uma âncora.

Parte do trabalho de quem lidera tecnologia é saber distinguir os dois.